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Instante Poesia e Cultura |
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Mestre Dorival Caymmi
(30/04/1914 - 16/08/2008)

Lá se foi o Mestre Dorival Caymmi, armar sua rede em outras paragens. Aos 94 anos, faleceu por volta das 6 horas da manhã de hoje, em sua casa no Rio de Janeiro, cidade que adotou a partir de 1938. Deixou pouco mais de cem composições e ao lado de seu conterrâneo e amigo Jorge Amado, a personificação definitiva do espírito cultural e humano de sua terra natal Bahia. Dorival forjou um estilo único e sem seguidores e mesmo quando expandiu sua verve praieira para o samba-canção carioca ou para o Carnaval, sempre imprimiu sua marca inconfundível. Não bastasse o dom para a composição, ainda foi agraciado por Deus com uma voz de baixo-cantante e tornou-se um exímio violinista, mesmo sem nunca ter estudado música. A sua “O que é que a baiana tem?” entrou para a história quando abriu as portas para o estrelato de Carmen Miranda nos EUA. E não foi a única obra sua que estava no momento e no lugar certo da história: “Rosa Morena”, “Doralice”, “Samba da minha Terra” e “Saudade da Bahia” marcaram presença no nascimento da Bossa Nova, incluídas no repertório irretocável de outro gênio baiano, João Gilberto, em seus primeiros LPs. E o que seria de Gabriela, em sua novela homônima na TV Globo em 1975, sem o tema “Modinha para Gabriela”, feita de encomenda pelo mestre e um estouro na voz de Gal Costa? Nada mal para quem sempre levou a fama de preguiçoso, pecha que jamais contestou. Mas o que não levavam em conta é que a sua famosa “lerdeza” nada mais era do que apuro, cuidado, perfeição. Tudo o que ele fez em vida, teve acabamento perfeito: canções, desenhos, quadros ( a pintura quase o fez desistir da música), poesias. Até os filhos, saíram à contento: Dori, Danilo e Nana não só seguiram a profissão do pai, como herdaram sua busca pela perfeição – aliás, gravações da família Caymmi reunida são itens disputados à tapa por colecionadores estrangeiros. Dorival Caymmi entra agora para o panteão dos gênios da música brasileira, ao lado de Tom Jobim, Pixinguinha, Heitor Villa-Lobos, Noel Rosa, Ari Barroso e poucos mais. Entra também para a eternidade, seja numa roda de praia entoando “Saudade de Itapoã”, um cantor na noite interpretando “Marina” ou uma mãe zelosa ninando seu filho com “Acalanto”: “Boi, boi, boi, boi da cara preta...”.
Escrito por Marcos Massolini às 15h27
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Voltando à série "letras" e "Minas Gerais", destaco o Chico Amaral entre os grandes letristas atuais, cúmplice do Skank em belas crônicas do nosso conturbado mundinho. Separei esta, desabafo puro contra o absurdo social; deixa queimar:
Rebelião (Samuel Rosa - Chico Amaral)
Nem todo o arsenal das guarnições civis Nem trezentos fuzis M-16 Nem as balas do Clinton, as bulas do Papa Nem os tapas dos que guardam leis Nada disso vai fazer a gente acatar O absurdo ad aeternum desse lugar Décimo círculo do último inferno Infecto, sem luz, sem letra, sem lei E pronto pra queimar Inferno de Dante diante de cada um Da hora em que começa a manhã Até a hora em que a cela se esfria, suja e sombria E a lua livre meio que zomba de nós Nem todo o aparato da Santa Inquisição Nem a dancinha do padre na sua televisão Bi Babulina chegou com gasolina e colchão E a esperança é mato no coração E pronto pra queimar Não há solução, nem mesmo hipocrisia Não há qualquer sinal de melhorar um dia Se você não se importa eu vou dinamitar A porta, a porra dessa masmorra Nem a educação do colégio Rousseau Pode dar conta do que aqui se passa Flores do mal! Luz do horror! Farol da barra dessa desgraça Só serve pra queima
Escrito por Marcos Massolini às 09h07
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Vinicius, grande Vinicius. Aos poucos, o mundo percebe quão grandiosa é a obra de Vinicius, que transbordou lirismo e angústia, transmutou otimismo e dúvida, muito além da praia e do whisky. Vinicius está deixando de ser poetinha pra virar "o poeta", um dos maiores que o Brasil já viu. Leiam a materia do Estadão de hoje, aqui http://www.estadao.com.br/estadaodehoje/20080723/not_imp210520,0.php , que deixa pistas sobre essa possivel transição da figura de Vinicius na literatura brasileira. De quebra, três poemas, dos quais transcrevo este:
SONETO DE ANIVERSÁRIO (Rio, 1942)
Passem-se dias, horas, meses, anos Amadureçam as ilusões da vida Prossiga ela sempre dividida Entre compensações e desenganos
Faça-se a carne mais envilecida Diminuam os bens, cresçam os danos Vença o ideal de andar caminhos planos Melhor que levar tudo de vencida.
Queira-se antes ventura que aventura À medida que a têmpora embranquece E fica tenra a fibra que era dura
E eu te direi: amiga minha, esquece... Que grande é este amor meu de criatura: Que vê envelhecer e não envelhece.
Escrito por Marcos Massolini às 16h26
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Ainda sobre o mítico "Milton" de 1970, anexo as duas ultimas letras, e as que mais emocionam no disco: "Amigo, Amiga", de Milton Nascimento com letra do carioquineiro (ou mineiroca) Ronaldo Bastos, o mais lírico e mais poeta da trinca letrista do Clube da Esquina, e Canto Latino, com letra cinematografica de Ruy Guerra, não por acaso feita para trilha de um dos seus filmes. Canto Latino tem pelo menos três momentos bem distintos: o primeiro, de pedido e desabafo (até a frase "não é ferrugem no aço"), o segundo de esperança e coragem (até "de verde ou de maduro") e o final pungente, onde o unico horizonte é a guerra ( ditaduras?), e é a guerra que ditará o futuro da América, até que a primavera enfim se abra soberana.
Amigo, Amiga
(Milton Nascimento/ Ronaldo Bastos)
Meu pensamento viaja Em sua busca de encontrar Amigo, amiga Quando viajo por terra Me sinto mais seguro Em terras de beira-mar Amigo, amiga procuro Meu coração é deserto Em busca de encontrar Amigo, amiga ou um rio Ou quem sabe um braço de mar Nas terras de beira-rio Eu sei, me sinto seguro Em todo rio me lanço De todo cais me afasto Molho cidades e campos Em busca de encontrar Caminho de outro rio Que me leve no rumo do mar Mas falta amigo, amiga Meu coração é deserto Amigo, amiga me aponte O rumo de encontrar Amigo, amiga ou um rio E quem sabe um braço de mar Meu pensamento viaja Meu coração é deserto
Canto Latino
(Milton Nascimento/ Ruy Guerra) - Cifrada
Cm Você que é tão avoada Dm Bm Pousou em meu coração G F7+ Moça, escuta esta toada Em Am5-/7 D7/9- Cantada em sua intenção Gm7 Cm7 F7 Nasci com a minha morte Bm7 Em7 Dela não vou abrir mão Fm7 Bbm7 Eb/7/9 Não quero o azar da sorte A7 D7/9- Em5-/7 Nem da morte ser irmão E7/9+ A6/7 D7/9+ G6/7 C#m7/9 F#6/7 Am5-/7 Da sombra eu tiro o meu sol D7/9- Bm7 Em7 Fm7 E de fio da canção Bbm7 Eb7/9 Amarro essa certeza A7 D7/9 Eb7/9 De saber que cada passo Eb7/9 Ab7+ Não é fuga nem defesa D7/9+ Em7 Não é ferrugem no aço D G É uma outra beleza Bb/C Feita de talho e de corte D G E a dor que agora traz C Bb/C D Aponta de ponta o norte C#m5-/7 Crava no chão a paz D/C G/B Sem a qual o fraco é forte Dm4/7 E a calmaria é engano D G Pra viver nesse chão duro C Bb/C D Tem de dar fora o fulano G Apodrecer o maduro C Bb/C D Pois esse canto latino C#m5-/7 Canto pra americano D/C G/B E se morre vai menino Dm4/7 D D7+ D7 E/D C/D Montando na fome ufano D G Teus poucos anos de vida C Bb/C Valem mais do que cem anos D G Quando a morte é vivida C Bb/C D E o corpo vira semente C#m5-/7 De outra vida aguerrida D/C G/B Que morre mais lá na frente Dm4/7 Da cor de ferro ou de escuro Am7 D7/9 Ou de verde ou de maduro Gm7 Cm7 Am5-/7 A primavera que espero D7/9- Bm7 Em7 Por ti, irmão e hermano Fm7 Bbm7 Eb7/9 Só brota em ponta de cano Am5-/7 D7/9+ Em5-/7 Em brilho de punhal puro Eb7/9 Ab7+ Brota em guerra e maravilha Dm4/7 Na hora, dia e futuro Cm7
Escrito por Marcos Massolini às 12h12
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"Se você não quer ser esquecido quando morrer, escreva coisas que vale a pena ler ou faça coisas que vale a pena escrever"
(Benjamin Franklin)
Escrito por Marcos Massolini às 18h58
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Com "Durango Kid", Fernando Brant prosseguia a sua "parceria paralela" com o audaz Toninho Horta, parceria que no LP anterior de 1969 ("Milton Nascimento") já denunciava sua faceta "serelepe e lépida" mas também desconcertante:
Aqui, ó!
(Toninho Horta e Fernando Brant)
Ó Minas Gerais
um caminhão leva quem ficou
por vinte anos ou mais
eu iria a pé, ó meu amor
eu iria até, meu pai,
sem um tostão
Em Minas Gerais alegria é
guardada em cofres, catedrais
na varanda encontro o meu amor
tem benção de Deus
Todo aquele que trabalha no escritório
Bendito é o fruto
Bendito é o fruto dessas Minas Gerais
Minas Gerais
É bem interessante essa "vida dupla" do Fernando Brant" com seus dois leais parceiros. Com o Milton, a densidade, a política, a paisagem. Com Toninho e sua guitarra única, a anarquia, o humor e o alegórico . Ligando-as, a nostalgia, a amizade e claro, a poesia de Minas Gerais e suas catedrais. Toninho e Fernando criaram ao longo dos anos pérolas despojadas e arejadas como "Manoel, o Audaz" (o Jeep do Fernando) e "Diana".
Escrito por Marcos Massolini às 22h01
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Esse é o LP que iniciou tudo: "Milton", 1970. Antes, portanto, do famoso "Clube da Esquina". A capa nos remete à Hendrix e é só a ponta do iceberg de influências desta bela obra. Foi aqui que o menino Lô Borges, do alto de seus 18 anos, injetou Beatles na música do Milton e teve suas primeiras musicas gravadas: "Para Lennon e McCartney (Lô Borges, Marcio Borges e Fernando Brant)", "Alunar (Lô e Marcio Borges)" e a mítica "Clube da Esquina"(Milton Nascimento, Lô Borges e Marcio Borges). Não bastasse a descoberta do Lô, ainda temos a presença de Ruy Guerra ( letra de "Canto Latino"), a comovente "Durango Kid", de Toninho Horta e Fernando Brant e a cozinha inquietante e genial do "Som Imaginário", com Wagner Tiso, Zé Rodrix, Tavito, Fredera, Luis Alves e Robertinho Silva e a participação sempre alucinante da percussão de Naná Vasconcelos. Os letristas, tomados pelos bons eflúvios, evocavam paisagens mineiras e aflições brasileiras. Seguem os destaques:
Durango Kid (Toninho Horta e Fernando Brant)
Propriamente eu sou Durango Kid Eu vim trazer, eu vim mostrar Novo jornal, novo sorriso Novo jornal, novo sorriso Propriamente dizer o só exato Pois hoje eu sou o que eu fui Não desmenti o meu passado Esse jornal é o meu revólver Esse jornal é o meu sorriso
Escrito por Marcos Massolini às 21h14
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NADA SERÁ COMO ANTES
(Milton Nascimento - Ronaldo Bastos)
Eu já estou com o pé nessa estrada Qualquer dia a gente se vê Sei que nada será como antes amanhã
Que notícias me dão dos amigos? Que notícias me dão de você? Sei que nada será como está, amanhã ou depois de amanhã Resistindo na boca da noite um gosto de sol
Num domingo qualquer, qualquer hora Ventania em qualquer direção Sei que nada será como antes, amanhã
Que notícias me dão dos amigos? Que notícias me dão de você? Sei que nada será como está, amanhã ou depois de amanhã Resistindo na boca da noite um gosto de sol
Escrito por Marcos Massolini às 20h28
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SAN VICENTE
(Milton Nascimento - Fernando Brant)
Coração americano Acordei de um sonho estranho Um gosto de vidro e corte Um sabor de chocolate No corpo e na cidade Com sabor de vida e morte Coração americano, um sabor de vidro e corte
A espera na fila é imensa E o corpo negro se esqueceu Estava em San Vicente A cidade e suas luzes Estava em San Vicente As mulheres e os homens Coração americano um sabor de vidro e corte
As horas não se contavam E o que era negro anoiteceu Enquanto se esperava Eu estava em San Vicente Enquanto acontecia Eu estava em San Vicente Coração americano um sabor de vidro e corte
Escrito por Marcos Massolini às 20h25
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Inicio agora uma série em homenagem aos letristas mineiros, destacando obviamente Marcio Borges, Fernando Brant e Ronaldo Bastos. O primeiro foi o letrista pioneiro do Clube da Esquina, antes mesmo do eclético clube se chamar assim. Fernando Brant começou a parceria virado pra Lua: a sua primeira letra com Milton, Travessia, se consagrou no festival de 67 e virou clássico instantâneo. Ronaldo Bastos, carioca de nascença e sócio do Clube mineiro por mérito, escreveu letras preciosas para Milton mas teve o seu ápice criativo em parcerias mágicas com Beto Guedes nas suas primeiras canções em carreira solo.
Pra começo, o proprio Clube da Esquina, LP lendário de 1972, creditado à Milton Nascimento e Lô Borges, que na época foi ignorado pela crítica e pouco entendido pelo público, mas que com o passar dos anos se tornou clássico, fundamental, único. Sua fama fez vários músicos internacionais embarcarem para o Brasil, como Pat Metheny, doido para conhecer o tal "The Corner Club". O Clube na verdade nunca teve endereço físico, existindo sempre na comunhão das gravações, e principalmente nas letras e músicas desse grupo que fez historia na MPB. Separei a seguir o que considero os melhores momentos deles no famoso álbum.
Tudo que você podia ser
(Lô Borges - Márcio Borges)
Com o sol e chuva você sonhava Que ia ser melhor depois Você queria ser o grande herói das estrelas Tudo que você queria ser Sei um segredo Você tem medo, só pensa agora em voltar Não fala mais na bota e no anel de zapata Tudo que você devia ser, sem medo! E não se lembra mais de mim Você não quis deixar que eu falasse de tudo Tudo que você podia ser, na estrada Ah! Sol e chuva na sua estrada Mas não importa, não faz mal Você ainda pensa e é melhor do que nada Tudo que você consegue ser, ou nada! Mas não importa, não faz mal Você ainda pensa e é melhor que nada Tudo que você consegue ser, ou nada!
Escrito por Marcos Massolini às 20h22
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Meus amigos, eu já achava o Paulo César Pinheiro um dos melhores e mais prolíficos letristas da nossa MPB. Mas nessa recente "Nomes de Favela" ele se superou....
Nomes de Favela
Paulo César Pinheiro
O galo já não canta mais no Cantagalo A água já não corre mais na Cachoeirinha Menino não pega mais manga na Mangueira E agora cidade grande é a Rocinha!
Ninguém faz mais jura de amor no Juramento Ninguém vai-se embora do Morro do Adeus Prazer se acabou lá no Morro dos Prazeres E a vida é um inferno na Cidade de Deus
Não sou do tempo das armas Por isso ainda prefiro Ouvir um verso de samba Do que escutar som de tiro
Pela poesia dos nomes de favela A vida por lá já foi mais bela Já foi bem melhor de se morar Mas hoje essa mesma poesia pede ajuda Ou lá na favela a vida muda Ou todos os nomes vão mudar
Escrito por Marcos Massolini às 09h18
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XX
Imóvel, sentado na banqueta da penteadeira clara, o homem de terno azul contemplava muito além do espelho a sua frente, viajando em pensamentos longínquos. Recordou pela enésima vez o encontro relâmpago do passado. Tão breve e tão intenso. A princípio pensava se tratar de um capricho de um homem carente e perturbado, mas a afinidade que se deu ali, logo de cara, mostrou que aquele momento fôra realmente transcendental. E o seu desfecho, tão inusitado e estranho, só carimbou esta aura mágica. Não entendia o porque do fim brusco, mas sabia ser ele o catalizador de todas as suas ações morais a partir dali. Se estava agora a poucos instantes de seu mais importante momento na vida, era porque seguira o sopro venturoso daquela tarde surpreendente. Um presente surpresa que sedimentou o seu futuro e que agora, daqui alguns minutos, encontra o seu apogeu.
Olhou para o relógio do seu pulso. Levantou-se lentamente do estofado e se dirigiu para o auditório lotado. Ao ultrapassar a espessa cortina que separa o corredor do salão principal, dezenas de flashes repercutiram das máquinas dos repórteres presentes à posse. Sentou-se e arrumou a pequena plaquinha de metal na bancada bem a sua frente com o nome completo escrito em preto e com letras maiúsculas: Jairo de Souza Duarte Serrada.
No outro dia os jornais matinais estampavam a inédita manchete: EMPOSSADO O PRIMEIRO BRASILEIRO NA PRESIDÊNCIA DA ONUD. O Jornal Meridional, o maior periódico do Brasil e da América Latina neste ano de 2038, acrescentava enfático em sua primeira página: AMAZÔNIA DEPOIS DA POSSE: NOVA LUTA PELO TERRITÓRIO LIVRE.
Em nenhum momento, desde a guerra EUA-Iraque, que precipitou a dissidência na ONU dos países contrários ao protecionismo comercial e ambiental americano e conseqüente criação da ONUD (Organização das Nações Unidas em Desenvolvimento), tinha-se visto tamanha repercussão internacional envolvendo a Amazônia. Quando Jairo ainda vendia seu drops sortido nos faróis de São Paulo, a Amazônia já aparecia em alguns livros didáticos de Geografia das escolas americanas com o nome de “PRINFA” – Primeira Reserva Internacional da Floresta Amazônica- e segundo os autores, pertencia aos EUA e a ONU desde meados da década de oitenta (com o aval do G-23), com o intuito de salvar a mais importante floresta do globo das “mãos inescrupulosas dos países latinos violentos, cruéis e irresponsáveis e de um povo primitivo”.
Guardado o delírio xenofobista do(s) autor(es) , a questão Amazônica é um dos itens mais delicados da pauta mundial . Entre os interessados envolvidos, índios, garimpeiros, grandes latifundiários, políticos, multinacionais, pesquisadores e ecologistas, todos entre o fogo cruzado da preservação e da exploração do ouro verde.
Quase quarenta anos depois do início da ONUD, Jairo assume um dos cargos políticos de maior responsabilidade social no mundo e mantém o mesmo brilho nos olhos daquele menino que caminhava entre os vidros fechados dos veículos. O mundo prossegue cego e doente. Vidros fechados, espelhos vazios, superpopulação e solidão. Mas há também paixão e fé.
A gana deste ex-pivete permanece inabalável e sob o prisma e o efeito de sua aura o futuro até parece mesmo melhor. Quem dera.
Neste mesmo dia, um velho índio - xamã centenário do alto Solimões - fustigado pelo sol do Equador, chorou de esperança em sua labuta de escravo ao receber finalmente o aviso bem-aventurado dos Deuses.
FIM
“Hay hombres que lucham un dia y son buenos/Hay otros que luchan um año y son mejores/Hay quienes luchan muchos años y son muy buenos/Pero hay los que luchan toda la vida/Esos son los imprescindibles”
Bertold Brecht
Silvio Rodrigues
Milton Nascimento c/ Mercedes Sosa
LP Sentinela - 1980
Escrito por Marcos Massolini às 18h17
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XIX
Dois homens, irreversivelmente ligados ao fio invisível do tempo, tecem as últimas frases de um diálogo descortinador:
- Esta paisagem que você pôde apreciar é na verdade uma ilusão criada sob o meu ponto de vista. Este é o meu habitat no futuro, quando a pequena comunidade já não existe mais. Quando você sair daqui, o tempo voltará e você vislumbrará o pequeno núcleo de habitantes.
- Obrigado por tudo. É muito estranho poder te conhecer assim em poucos minutos, e nesta condição tão peculiar, você com esta barba branca de setenta anos e eu, remoçado, no viço de meus vinte anos. Mas creio nunca ter sentido tamanha emoção, talvez pelo ineditismo deste encontro e sua oportunidade única. Até já consigo te chamar de filho...
- Boa sorte meu pai! Paz e fortúnios no seu caminho. Se te conforta um último parecer, acho que o futuro pode ser mudado, mesmo já sendo conhecido. Sabemos dele, mas agora para a gente, ele ainda não aconteceu. Quem sabe....
- Que a vontade de Deus e do Cosmo seja feita.
Mais um abraço, desta vez rápido.
- Dhevas, você perdeu a vida em uma avalanche como relatou?
- Não posso te responder com todas as letras. Ao invés de morte, falemos em transposição. E digamos que eu romanceei um pouco a minha própria saga. Estou aqui, não estou? Só isto importa.
Mesmo sentindo um misto de paúra e ansiedade, Abílio ainda teve fôlego para esta blague:
- Uma última coisa... aqui por este plano eu encontro vitrola e discos de vinil?
- Ora, ... mesmo que encontre, cadê tomada?
Entre risos, os dois sumiram no tempo.
“ Eu quero uma casa no campo
do tamanho ideal
pau-a-pique e sapé
onde eu possa plantar meus amigos
meus discos e livros
e nada mais”
Casa no campo – Zé Rodrix e Tavito
LP- Elis - 1972
Escrito por Marcos Massolini às 18h15
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XVIII - PARTE II
- Meu caro Abílio, eu sou Dhevas, aquele mesmo personagem daquela história; este lugar aqui é aquele mesmo narrado; fui muitas pessoas em muitas existências, inclusive serei seu filho, daqui há alguns anos.
- O quê? Meu Deus, você quer se explicar melhor?
- Serei seu filho sim, neste plano, e apareço para você agora exatamente com as mesmas características físicas dele, mas com a idade avançada .
Abílio não conseguia esconder o queixo caído e a cara de abobalhado. Dhevas prosseguiu:
- Tudo o que foi feito na Terra foi com o intuito de reabilitar você e salvar a vida do pequeno Jairo. Pelas suas existências passadas repletas de revoluções e pela sua poderosa concentração energética, você foi escolhido para salvar aquela pobre alma. Não importava que nesta sua última passagem, você fosse um ignorante arrogante.
- Opa, peralá.... olha o respeito...
- Sinto muito...pensando melhor, até que você ficou bem maleável no fim da experiência. Bem, continuando: Tudo o que aconteceu com você até o momento do encontro com o menino de rua foi intencionalmente direcionado para que você se libertasse das más influências terrenas e liberasse sua energia “pura” em favor de Jairo. O desfalque no seu cofre completou este "resgate" - embora você tivesse muitos bens, nunca confiou totalmente em bancos e guardava muitos objetos de valor em casa. Quando você acolheu aquele menino em sua casa e fez o bilhete se libertando mais ainda do lado material que te prendia e te cegava, você modificou o destino do guri pra sempre.
- Mas você falou que eu o salvei...
- Sim, a nossa intenção foi esta. No outro dia, forças contrárias corroborariam para um trágico desfecho. Jairo iria se envolver com um crime; sem saber das conseqüências, iria participar de um assalto onde uma pessoa viria a falecer e apesar de não ser o responsável direto por esta morte, iria cumprir pena na Febem; de lá, ele nunca mais conseguiria sair do mundo criminoso. Com seu ato, você salvou sim este pequeno, que agora crescerá com imenso potencial para realizar uma grande missão que lhe foi confiada no futuro. Você trouxe esperança para ele . Naquele outro dia, quando o chefe da gang mirim ligou para combinar o horário do assalto, Jairo e sua mãe não estavam em casa mas na igreja orando e agradecendo pela graça concebida.
- Nossa, então tudo foi planejado! Meu Deus, como somos pequenos... tantos movimentos grandiosos...
- Pequenos sim, mas podemos influir, mesmo que com mínimos atos isolados, em revoluções imprescindíveis do Universo. Mas só voltando um pouco: Eu não apareci para você naquela praça à toa. Contando aquela história, eu já estava transferindo a você a paz e a serenidade necessárias para o seu desprendimento e transporte posterior.
- Estou perplexo! Mas ainda não entendi a parte “eu serei o seu filho..”
- Bem, você a partir deste momento vai iniciar a saga de Lahmé. O homem das montanhas que surge na pequena comunidade e conhece o seu grande amor. Eu não havia citado o passado de Lahmé porque na verdade nunca existiu este passado; aqui neste plano, alguns seres surgem já desenvolvidos e com conhecimentos adquiridos de outras esferas; na narrativa ele não se lembrava do que lhe acontecera anteriormente e é como você se comportará neste início de vida; assim que você sair deste casebre, as suas lembranças como Abílio desaparecerão, incluindo portanto tudo o que você sabe sobre Lahmé, Dinah e Dhevas. Tudo se inicia agora. Lahmé surge e é você! Avante pois!
- Minha Santa Mãe! Mas só para encerrar esta confusa relação tempo/espaço que me é apresentada, você, meu... filho (??) , veio me ajudar no futuro ou no passado? Abílio existiu antes ou depois de Lahmé?
- Bem, esta resposta é relativa. Na espiral do tempo, o futuro se choca com o passado e em certas frestas espaciais, chegam a conviver paralelamente em planos coexistentes. Estive há poucos instantes no seu enterro simbólico na Terra, e este féretro já tem mais de dois anos. Nesta nossa história não há passado nem futuro, mas momento presente. Um ser especial precisou de intervenção imediata e para isto, dois mundos, dois planos, dois ciclos - chame como preferir – se entrelaçaram e dividiram energia para assegurar um acontecimento precioso. Mas chega de indagações! Já nos estendemos demais nestas explicações temporais e se nos prendermos nestes assuntos que não nos competem, enlouquecemos pra sempre. É hora de nos separarmos.
- É doloroso saber que vou sair por esta porta agora e não o verei mais...
- Foi um grande erro meu. Ao narrar a nossa história, me empolguei ; não devia ter comentado sobre a sua própria morte. Mesmo sabendo que a sua memória não guardaria aquele nosso encontro, poderia tê-lo poupado deste sentimento de vazio e perda que sente agora, neste instante de transição. Me desculpa.
- Você se redimiu. Estando comigo agora, neste momento tão importante de nossas vidas, jogando uma pequena luz sobre tantas indagações que solto do escuro, você está me dando a chance de poder abraçá-lo e beijá-lo como pai. Este minuto final ficará guardado para sempre no meu íntimo e no meu coração, pouco importando sua ausência em minhas lembranças futuras. E tem mais: Posso saborear, mesmo que por pouco tempo, este sentimento único de heroísmo paterno, levando em conta que a sua narrativa como filho deixou escapar este olhar passional sobre minha pessoa.
O abraço que se seguiu foi forte e sentido, como o último abraço de um soldado em sua esposa antes da guerra, como um beijo de um filho na fronte do seu pai no leito de morte. Este abraço estremeceu dois mundos.
Oh, pedaço de mim
Oh, metade arrancada de mim
Leva o vulto teu
Que a saudade é o revés de um parto
A saudade é arrumar o quarto
Do filho que já morreu
( Pedaço de Mim – Chico Buarque
LP Chico Buarque – 1978)
Escrito por Marcos Massolini às 18h13
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“O melhor lugar do mundo é aqui, e agora/
Aqui onde indefinido/Agora que é quase quando/
Quando ser leve ou pesado/Deixa de fazer sentido”
Gilberto Gil – Aqui e Agora – LP Refavela 1977
XVIII
Abílio, deslumbrado por tamanha beleza, resolveu entrar naquele pacato casebre. Seria aquele o paraíso de Dhevas? Pelas suas palavras, tudo era muito idêntico à narrativa. Ao abrir a porta, Abílio se assustou mais uma vez – e não é o último susto deste livro. No interior sem mobília, uma parede rústica escorava um pequeno objeto de quatro pontas, a mesma moldura, o mesmo tamanho...sim era ele....agora sim: o famigerado espelho.
***********
Receoso, Abílio se aproximou com cuidado do espelho a ao mirá-lo, esboçou uma careta. Não, desta vez o seu reflexo não estava falando por si só, mas o seu rosto refletido remoçara pelo menos uns vinte anos - não havia mais rugas ou cabelos brancos e seus olhos desfilavam um brilho intenso de vitalidade. Encostou seu rosto no espelho e abriu as pálpebras com os dedos, não acreditando na jovialidade automática.
O velho adentrou o pequeno recinto no momento em que Abílio beliscava as bochechas.
- Boas, Abílio!
Abílio arregalou os olhos e quase desabou no chão, tal o tremor que se apoderou de suas pernas.
- De..Dhevas?
- Tenho muitos nomes, Abílio. Dhevas é só mais um. Sente-se e tentarei me explicar melhor.
Abílio puxou um banquinho de madeira. O velho continuou de pé.
- Não posso contar todos os detalhes de minha missão, mas alguns lances podem ser expostos à luz do esclarecimento. O atual patamar da minha evolução me possibilitou poderes incríveis e a liberdade de vivenciar dois ou mais mundos em planos diferentes é um destes poderes.Sou Dhevas sim e aquela história narrada por mim realmente aconteceu. Vê lá fora? A mesma paisagem . Acha tudo isto coincidência?
- Não. Acho tudo muito confuso, mas sinto que este lugar é mesmo o paraíso de Dhevas.
- Sim, está certo. Mas quando narrei a história, não contei só um detalhe: este lugar está em um plano diferente do da Terra. Estes Andes não são os Andes terrestres, mas pertencem a uma dimensão sinergicamente compatível com as energias planetárias da Terra. Aquele quarto escuro em que você se encontrava antes de chegar aqui.... você sabia que passou dois anos terrestres ali, em plena desintoxicação energética?
- Dois anos?
- Sim. Para alcançar estas terras, você teve que passar por um banho purificador cósmico. Lembra do clarão vermelho que avistou em seu último momento na Terra?
- Sim, claramente! - confirmou Abílio, perturbado ainda em saber que sua memória mais recente já tinha dois anos.
- Pois então... um transporte energético já havia acontecido, no momento em que você avistou aquela pequena estrela vermelha no céu, lembra?
- Sim! Quer dizer que ali eu já fui atingido por uma energia vindo de outro lugar ?
- Exato. Ali já teve início a sua higiene cósmica para que o teletransporte se desse com sucesso.
- Teletransporte ?
- Você foi transportado da sua casa para aquele “quartinho escuro” que chamamos de metacasulo nubilizador . Lá você ficou os dois anos terrestres, o que para este plano não é um tempo tão grande assim.
- Bem, ao acordar deste “sono dirigido”, entrei em um espelho e surgi aqui neste lugar magnífico... Agora me conte, por favor, quem é você realmente? Você falou que tem vários nomes. Como assim?
Escrito por Marcos Massolini às 18h06
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