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CAPÍTULO I
Abílio não conseguia dormir depois de um dia recheado de emoções e estranhezas. Se revirava no sofá-cama de sua ampla residência e remoía os últimos acontecimentos. Desde que acordou, nesta sexta-feira fria de outono, participara de incidentes que somados, transformaram este no dia mais impressionante da sua vida.
Tudo começou com um leve mas insistente zumbido dentro de sua cabeça - nada que interferisse no seu ritual robótico matinal, de sentar por dois minutos na cama, calçar os chinelos estrategicamente postados no chão e rumar para o banheiro. Mas uma força oculta já se instalara no seu dia e sem que percebesse de imediato, passou a interferir nas suas funções vitais. A sua memória, por exemplo. Ela sempre foi deficiente, confusa, e só conseguia resgatar flashes de experiências mais antigas, como uma excursão na pré-adolescência ou fatos marcantes mas esporádicos da infância. Pois nesta manhã, ao fixar seus olhos no espelho do banheiro, Abílio se viu num redemoinho de lembranças, que pela velocidade e nitidez, o estarreceu. Era inacreditável: todos os convidados presentes no seu aniversário de quinze anos, por exemplo, surgiram de supetão em sua mente, incluindo aí detalhes de suas roupas e penteados. Inclusive, nesta mesma festa, se lembrou da primeira música “lenta” da noite, “Nobody does it better” de Carly Simon, e do rosto da garota com quem dançara coladinho; exceto pelo primeiro nome que guardara, Carina, ele nunca mais lembrara de suas características físicas, mesmo porque naquela noite o affair rolou com outra.
Não sei se foram cinco minutos ou uma hora, mas aquele ensandecido instante de Abílio por sobre a pia lhe propiciou um resgate histórico de mais de trinta anos, passando por todos os fatos importantes e memoráveis de sua existência, além de um diferencial perturbador: a reprise de milhares de momentos íntimos e pessoais, aqueles que a gente guarda com carinho ou deferência no íntimo mas o tempo se encarrega de nebulizar; segredos, toques sutis, olhares furtivos, detalhes nítidos de viagens e suas ruas e cidades, músicas especiais, conversas até então fragmentadas na memória, promessas, porres revividos e tantas outras emoções arrebatadoras, que pela ação exterminadora do tempo, se precipitam num abismo qualquer do subconsciente.
Abílio só voltou deste transe quando a tampa da privada bateu com força na cerâmica do vaso. Imediatamente tentou amornar seu ânimo. “Eu estava dormindo em pé e estas alucinações velozes não passam de um sonho estranho”, martelou pra si falsas conclusões, na ilusão de dissipar o choque. Chacoalhou a cabeça com força, como se pudesse arrancar num solavanco este flash mágico e elíptico de sua rotina cercada de regras quadradas. Mas lá no fundo, sabia que estas “alucinações velozes” eram realistas demais para um transe de sonâmbulo e ficariam para sempre vivas e lancinantes como feridas abertas. Penteou de qualquer jeito o cabelo ralo e se enfiou na camisa e na calça em tempo recorde. Apanhou rapidamente o terno e a valise de todo dia e foi , obtuso, atravessar o trânsito infernal da sua cidade apocalíptica.
Escrito por Marcos Massolini às 21h09
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