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“Lembrar de esquecer/esquecer de lembrar/
Cansar de dormir/dormir descansar”
Walter Franco – LP Revolver – 1975
II
Abílio adentrou o subsolo do prédio em que trabalhava há mais de doze anos como gerente financeiro e ao bater a porta de seu Vectra, um sobressalto: Léo Vasquez, seu inesquecível chefe, ali, a menos de três metros, andando em direção ao elevador. Tudo estaria na mais perfeita normalidade, exceto por um detalhe: Léo não poderia estar a poucos passos de Abílio, pois morrera em um acidente aéreo há exatos dois anos. Mas era ele sim - ruminava desconfortavelmente Abílio – o mesmo indefectível terno de linho escovado, a falha de cabelo no topo da cabeça, o andar arqueado. Abílio, mesmo ofegante de susto e totalmente atordoado, apertou o passo a fim de alcançá-lo, mas ao atravessar a porta de acesso ao hall, a mórbida aparição sumiu no ar, sem deixar vestígios. Constatou que o elevador não atingira ainda o subsolo e gelou por dentro. Subiu com as pernas bambas e a camisa empapada de suor; sentou trêmulo em sua cadeira descascada e logo percebeu pelo silêncio que ninguém chegara ainda ao escritório; mas pelo seu relógio e o da parede à sua frente, já eram 8h15 - muitos ali batiam cartão e chegavam religiosamente às 8h. Levantou-se de repente. O ar também parecia faltar. Temendo por sua sanidade, saiu rapidamente daquele vazio irreconhecível sem saber exatamente o que fazer.
Escrito por Marcos Massolini às 21h29
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