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“Tudo em volta está deserto, tudo certo
Tudo certo como dois e dois são cinco”
Como dois e dois (Caetano Veloso)- Roberto Carlos
LP Roberto Carlos – 1971
III
Abílio deixou o carro na garagem e se misturou à multidão na calçada, com a cabeça a mil e completamente sem rumo. Entre uma passada afobada e outra, tentava concatenar as idéias diante dos fenômenos dantescos que presenciara até então. Primeiro, aquele filme no espelho do banheiro; depois, a figura fantasmagórica do seu ex-chefe, complementada com o desaparecimento de todos os seus colegas da repartição. O que mais poderia acontecer, meu Deus? – a palavra Deus ainda ecoava nos recônditos de sua mente, quando Abílio percebeu uma movimentação anormal a alguns metros de onde estava. Notou que dois homens corriam em sua direção, atropelando quem estivesse no caminho. Logo atrás deles, um policial aparentando não mais que vinte anos, empunhava uma arma em sua mão esquerda e tentava a todo custo alcançar a dupla de facínoras. Abílio, apesar do grande número de pedestres a sua volta, se sentiu sozinho naquele momento, entre os marginais e o jovem de farda. O tempo pareceu paralisar-se quando por um descuido, o policial apertou o gatilho da arma em sua ânsia de captura. Como se acionassem a tecla de slow motion do controle-remoto da TV, aquele projétil saiu em câmera lenta do cano da arma e veio de encontro a Abílio. Ao sentir o impacto, se ajoelhou no calçamento e instintivamente segurou forte com a mão esquerda o seu ombro direito; a mão logo se tingiu de vermelho e foi esta a sua última visão, antes da escuridão do inevitável desmaio.
Escrito por Marcos Massolini às 20h48
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