“Tentando de cabo a rabo/São Paulo de ponta a ponta/Na batalha de sossego/alívio ou mesmo a morte”
(Embalos – Itamar Assumpção - LP Beleléu – 1980)
IV
Abílio acordou em um quarto bem claro, com um forte cheiro de éter impregnando o ar. Um hospital? Sim. Abílio logo viu o seu ombro imobilizado e imediatamente se lembrou do bang-bang em plena manhã na rua. Uma enfermeira loira miudinha adentrou o quarto e logo tranqüilizou-o ao informar que a maledeta (palavra dela) bala triscara seu ombro sem grandes seqüelas e logo logo ele receberia alta do médico responsável .
Estes minutos de espera no leito serviram para Abílio refletir sobre sua condição. Num primeiro momento, divagou sobre aquela manhã estapafúrdia, mas logo começou a se indagar sobre o seu papel neste mundo mesmo e a que ponto chegara sua miserável existência. Estava sozinho naquele quarto insípido e provavelmente sairia sozinho dali. Há quanto tempo não via seu único filho? E a mãe dele, que o levou não se sabe pra onde, quando foi mesmo que ela sumiu do mapa para seguir a vida com um novo marido? E os amigos? Peralá ... amizade? Bem, desde o término do curso de administração na faculdade, não praticava mais este esporte tão bom pras carótidas.
Sozinho como previsto, se viu saindo do hospital, com um ligeiro desconforto no ombro e a sensação após tanta reflexão, que aquela sexta-feira maluca não estava acontecendo à toa. Finalmente, talvez por conseqüência dos incidentes recentes, Abílio olhava para dentro de si e se via só, egoísta e tolo. Os erros e frustrações vinham à tona como numa torrente. Mesmo com a recomendação médica de repouso imediato, Abílio queria caminhar e caminhar, talvez em busca do ar que aquela angústia sufocante lhe arrancava. Após longo exílio dentro de si mesmo, parece que saía aos poucos da letargia que o isolou do mundo exterior e caía num penhasco espinhoso e íngreme que ele mesmo vinha cultivando e não se apercebia. Descobriu enfim o safardana miserável e sórdido que o habitava.
Sentou no banco de uma imensa praça repleta de flores e por alguns instantes conseguiu arrefecer suas inquietações. Um senhor de barbas longas, vestindo uma roupa esgarçada, sentou-se ao seu lado e logo puxou assunto, começando com a meteorologia e seus raros acertos diante deste tempo louco, depois engatando um papo sobre as flores e seus poderes olfativos e curativos. O senhor tinha boa desenvoltura com as palavras e logo iniciava uma longa história sobre um homem que morava em terras longínquas, num casebre humilde rodeado por belas flores. Abílio, que nunca foi um ouvinte exemplar, preocupado sempre com o seu ato imediato, desta vez permaneceu atento e até inebriado por aquela voz grave e cavernosa vindo da boca branca do desconhecido idoso.