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Bela, linda criatura, bonita
Nem menina nem mulher
Tem um espelho no seu corpo de neve
Nem menina, nem mulher
Táxi Lunar – ( Geraldo Azevedo/Zé Ramalho/Alceu Valença)
LP Bicho de 7 Cabeças – Geraldo Azevedo - 1979
VI
Dhevas viveu sob este signo heróico erigido por sua mãe. Os dois ali, sozinhos, num mundo isolado repleto de flores e ruínas cobertas pela vegetação, permaneceram muitos anos como verdadeiros eremitas. Dhevas crescia como ela crescera tempos atrás: livre e selvagem! Sua mãe lhe contava grandes estórias sobre seu pai e ele vibrava por dentro - sentia sempre a presença de seu progenitor em suas andanças e caçadas.Conforme amadurecia, desenvolvia tamanha sinergia com aquele lugar, que passou a se comunicar com os bichos e as plantas, numa linguagem vibratória criada a partir da energia do toque de suas mãos. Tornou-se um exímio conhecedor da natureza e pássaros de várias espécies vinham se alimentar em sua mão. Sua mãe percebia o filho especial que tinha e tamanha admiração e amor por ele a mantinha com forças para prosseguir e viver, embora muito da sua vivacidade se fôra com o passamento de Lahmé.
Dhevas foi sempre um filho exemplar e companheiro de primeira hora, até o último momento, quando Dinah finalmente foi ao encontro de seu amado Lahmé, quase quarenta anos após dar a luz. Assim como ela, ele não arredou pé do seu paraíso: Aquela terra era sua extensão, os pássaros e as flores seus confidentes e sua elevação espiritual a esta altura era tanta, que nem a saudade o assaltava, tal a sua sintonia com outras dimensões e planos. Era como se seu pai e sua mãe continuassem ali.
Certa feita, Dhevas se preparava para o Maghot, ritual de meditação do início da Primavera, quando sentiu o seu corpo ser arrancado da posição de Lótus e conduzido para o caminho sagrado do Pico da Fluorescência. Neste local, onde a neve brilhava intensamente – daí o seu nome – havia uma gigantesca sequóia de três mil anos e foi bem em frente a sua maior raiz que Dhevas foi deixado. Enquanto balançava os braços para ter certeza que as forças ocultas não o conduziam mais, uma intensa luz vermelha se formou bem no centro do tronco quase pré-histórico. Imediatamente um portal retangular substituiu o clarão e duas criaturas surgiram do seu interior. Mesmo a imaginação mais fértil de um escritor de ficção científica não conseguiria conceber características físicas tão disparatadas: o maior dos seres tinha aproximadamente dois metros de altura e sua cor geral era cinza, embora suas extremidades exibissem uma tonalidade verde; na superfície do seu pescoço, imenso, guelras ou cavidades muito parecidas com guelras, pulsavam intensamente; não se notava um nariz em seu rosto achatado, mas se destacava uma bocarra cheia de dentes serrilhados; em seu ventre viscoso, três seios proeminentes, idênticos ao das humanas, só que pulsantes. Ao seu lado, uma criatura similar, mas com pouco menos de um metro; a sua coloração era mais clara, com pequenos sinais arroxeados e o seu corpo tremia; à primeira vista, esta parecia ser uma criança assustada ao lado da figura materna; além do seu tremor contínuo, emitia um gemido baixo mas intenso, como alguém que sofre de dor crônica.
Os dois entes se postaram entre o portal e Dhevas, que se encontrava prostrado e sobrecarregado de emoção. Já há algum tempo, a Natureza vinha lhe mandando sinais exteriores, mas nenhuma experiência mística recente se comparava a esta. Como que abduzido, ergueu seu braço esquerdo e planou-o sobre o encéfalo da criatura menor. Por alguns minutos, manteve a palma aberta em vibração constante, até que um choque repentino o fez cair para trás, violentamente ao solo. Ao se restabelecer, viu à sua frente uma transformação miraculosa: “A criança de outro lugar” exibia agora cor mais brilhante e viscosa e não gemia nem tremia mais; as nódoas escuras haviam sumido de sua pele. Era óbvio que uma cura se estabelecera ali e Dhevas, mesmo leigo sobre a real extensão da extirpada chaga, se emocionou muito ao se perceber instrumento reparador. A suposta mãe logo veio ao seu encontro e lhe entregou uma pequena pedra azulada que ao tocar a sua pele, lhe propiciou um bem estar instantâneo; em seguida, ela iniciou uma linda melodia, sublime e maviosa, que veio como gratidão complementar. Ao sumirem no portal ainda aberto na sequóia , as criaturas fantásticas deixaram no coração do ermitão uma certeza: os caminhos dos seres viventes se mostram pequenos mas são abrangentes, porque muitos são os atalhos do Universo talhados pelo plano Divino.
Feliz e realizado, espalhando luz pelos atalhos diversos, Dhevas prosseguiu com sua missão por muitos e muitos anos, até que já octagenário, a força de uma avalanche o levou para o coração da terra. Seu sagrado chão finalmente o acolhia, agora como raiz e húmus energético.
As espetaculares flores permaneceram colorindo a vasta cobertura branca dos Andes, reverenciando Dhevas para sempre.
Escrito por Marcos Massolini às 09h08
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