VII
O velho de barba longa terminou a narrativa e após um longo suspiro, olhou para Abílio e sorriu.
- Dhevas personifica a felicidade em estado bruto. Mesmo faltando-lhe um amor carnal, um amigo contemporâneo e qualquer contato com outro ser humano por anos a fio, sempre esteve bem consigo mesmo e o seu estado perene era de contemplação e júbilo. A terra, a fauna e a flora eram as raízes que o fortaleciam para seus vôos sensoriais rumo a Deus. O seu poder miraculoso era meticulosamente parelho a sua humildade extrema. O ser humano pode sim ser feliz assim, mesmo com recursos materiais mínimos, ou por maior que parecer a solidão . Na verdade, os recursos divinos são ilimitados e o homem nunca está totalmente só. Dhevas lançou sua alma muito acima da sua aparente existência limitada. A fé move montanhas sim, e nesta passagem, nada é tão geograficamente verdadeiro.
Estas palavras tocaram fundo Abílio. Tudo o que fizera na vida até aquele momento era calcado em seu humor, seus gostos e suas teimosias. A partir de seu umbigo, o dia se tornava interessante ou não; a partir de suas convicções e atitudes, as pessoas se tornavam úteis ou não. Tudo enfim girava em torno de sua órbita mesquinha. Ao ouvir a história daquele homem, percebeu o quanto agira errado com as emoções e os relacionamentos e conseqüentemente com a própria vida.
Pela primeira vez se deu conta que estava sozinho não por vontade, como Dhevas, que se fez no ermo místico, mas porque na verdade todos o abandonaram, tal sua insensatez e egolatria. Não foi ele que guardou dinheiro a vida inteira, a ponto de negar um passeio a seu próprio filho ou deixar de presentear sua esposa em uma data especial? Não foi ele que infernizou a vida de sua mãe, indo contra seu namoro após oito anos de viuvez? Não foi ele que puxou o tapete de vários funcionários do escritório, com receio de perder seu precioso emprego? Se estava sozinho hoje, não era por uma imposição inevitável do destino, mas porque a sua total falta de compaixão e companheirismo afugentou todos os que tentaram se aproximar ou se relacionar.
Abílio estava se sentindo o próprio “Dhevas das Trevas”, um Dhevas do avesso, e ao invés de flores ao seu redor, parecia que um colar de espinhos o sufocava mais e mais. O idoso colocou sua mão delicadamente por sobre o ombro avariado de Abílio e antes de se retirar de cena, cochichou bem perto de seu ouvido:
- Deus pode mostrar toda a nossa existência em poucos segundos, assim como alguns segundos de um reflexo no espelho podem mostrar a nossa verdadeira face, aquela que ainda não foi ofuscada pelo brilho falso de nossa interpretação medrosa e covarde diante da vida. Adeus, Abílio!
Enquanto matutava como ele sabia o seu nome, já que não se apresentaram, Abílio ainda conseguiu num grito perguntar-lhe o nome e a sua resposta, já soando baixa pela distância, o deixou transtornado de vez:
- Dhevas.