A tarde caía e Abílio resolveu voltar pra casa. Se tocou que seu carro ficara no estacionamento, mas não se preocupou muito com este detalhe - não estar motorizado naquele momento em que até o chão parecia faltar, não era o maior dos seus problemas. Outras questões o afligiam: aquele homem era Dhevas mesmo ou um louco varrido com imaginação fértil? Dhevas não havia morrido na avalanche? Como ele sabia o seu nome e porque citou o espelho? Os pensamentos se chocavam e perturbavam Abílio. Ao mesmo tempo que muitas coisas do seu passado e do seu presente ficavam mais claras, os acontecimentos sucessivos daquele dia extremado o abalavam irreversivelmente.
Foi então que se deu conta que seu ombro não doía mais! O homem com jeito de druida tocara com sua palma o ferimento e depois deste leve toque, adeus dor. Abílio só não percebeu esta cura de imediato, por culpa da palavra Dhevas, proferida naquele mesmo instante, e que o distraiu. Sem o desconforto e a dor física mas com a cabeça zonza e prestes a explodir, só pensava em seu doce lar. Talvez um banho o tirasse daquele pesadelo sem fim.
Ao tocar a maçaneta da porta de sua residência, notou que ela estava aberta. Entrou com passos de gato; o sofá estava virado no centro da sala; papéis e documentos se espalhavam pelo chão de seu quarto; correu até o escritório com o coração na boca; o pior estava feito: suas economias – leia-se jóias da família, ações e dólares - guardadas durante estes anos todos, foram tiradas do interior do seu cofre, camuflado atrás de um quadro horrível imitando Volpi. O coração não agüentou o baque e Abílio se estatelou no chão, com os dois braços por cima da cabeça. Pelo barulho, talvez um dente tenha se quebrado na queda abrupta.