Instante Poesia e Cultura
  

                                      IX ( continuação)

 

Abílio, sentado com o queixo ancorado nos joelhos, chorou copiosamente enquanto escutava esta canção de trinta e poucos anos atrás, a mesma que foi  relembrada dentro do turbilhão matinal frente ao espelho. Durante os dois minutos e meio de execução da faixa, se viu no passado novamente e a visão da felicidade possível o fez desabar em lágrimas. Sim, ele já se sentiu feliz, mesmo que por pouco tempo. Quando casou com Vilma, a mesquinhez e o egoísmo não faziam parte de sua cartilha e ele realmente sentia a paixão acender o seu caminho; amou sua mulher intensamente durante aqueles primeiros anos de matrimônio e a chegada de Marquinhos só avivou aquela união que parecia blindada. Mas logo este Abílio de agora se apoderou daquele Abílio amoroso e fraterno e erigiu uma barreira que anulou qualquer resquício de amor e afeto. Continuava gostando da esposa e do filho, mas transferiu para o dinheiro e conseqüentemente para o trabalho todo o seu arrebatamento e entusiasmo.Levantou-se e foi lavar o rosto. Percebia agora toda a profundidade de sua solidão. Por linhas tortas, esta sexta-feira que começara neste mesmo espelho e o fizera percorrer toda a sua memória existencial, desnudara por completo seu orgulho e o seu falso domínio social. Fitando aquela superfície regular e transparente, percebia por detrás de sua cara perplexa  toda a carga negativa que alimentara durante a vida. Lavou-a com força, na ilusão de acordar daquela loucura toda. Desde a sua fase “adulta”, ali por volta dos 18 (17?), Abílio passou a se sentir o máximo, o melhor em tudo (Baby, you’re the best?) e conforme foi se cercando de posses, sua conduta imperial só cresceu. Se no início da infância de seu filho ele conseguia ser um pai companheiro, aos poucos foi largando mão das brincadeiras e das horas de lazer. Trabalho mais trabalho vezes trabalho, eis o lema. Sua mulher um dia o repreendeu e a partir deste protesto espontâneo, o relacionamento começou a balançar, até virar um pálido casamento de fachada.

Com sua mãe, o distanciamento foi catapultado por outra situação, mas também originada por sua obsessão egocêntrica: Quando Dona Mirian, já viúva por um bom período, encontrou um novo companheiro para compartilhar uma vida a dois, Abílio se mostrou extremamente enciumado e proibiu terminantemente a relação. Sua mãe agüentou este clima ditatorial durante um ano, até que por conta de uma transferência de seu namorado para o Paraná, ela se mudou, agradecendo aos céus por esta providência. E assim, sucessivamente, parentes e amigos foram se afastando, mas ele parecia não notar este movimento aversivo e continuava com seu nariz empinado e sua ironia cortante. Incrível, mas só hoje Abílio parou para olhar seu reflexo no espelho. E só hoje percebeu que por trás daquela carapaça moldada com fel e breu, ainda havia uma luz redentória. . Este foco inédito no seu humanismo original abriu a ponte que de repente rasgou sua manhã. Deu no que deu: um desencadeamento de situações extremas despencando diretamente na sua cabeça, num efeito cascata de encasquetar qualquer um. Foi buscar uma Skol lata na geladeira e voltou para o banheiro. Parecia que queria de novo aquele túnel incontrolável de lembranças, mas a única coisa que recordava nitidamente naquele momento era da sua face aos dezesseis anos. Lá estava ela ao lado da sua cara atual, esta com fiapos de cabelo no cocorucho, bigodinho ralo e olhos amedrontados e tristes. Segurando as rugas, confrontou as duas feições por alguns instantes e sentiu vontade de golpear aquele espelho amaldiçoado. Sua mão foi salva pelo toque da campainha, que o fez segurar o soco no ar.

 



Escrito por Marcos Massolini às 00h01
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Apois pro cantadô i violêro

Só hai treis coisa nesse mundo vão

Amô, furria, viola, nunca dinhêro

Viola,furria, amô, dinhêro não

 

 O Violeiro ( Elomar )

 

LP ...Das Barrancas do Rio Gavião –  Elomar 1973

 

                                               IX 

 

O desmaio não durou mais que dois minutos. Levantou-se do chão e sentiu sua boca dolorida. Gosto de sangue. Se este incidente tivesse ocorrido dois dias antes, com certeza ele estaria se corroendo de ódio e vingança. Mas nenhum sentimento inferior o dominava naquele momento. Pelo contrário: algo subliminar o fazia levitar. Atravessou a sala bem devagar e pulou o sofá caído; escolheu a dedo um LP no meio de uma pilha espalhada no chão. A agulha foi direcionada para a terceira faixa do vinil.

 

Nobody does it better

(Carole Bayer Sager/Marvin Hamlisch)

 

Nobody does it better/ Makes me feel sad for the rest./ Nobody does it / Half as good as you, /Baby, you’re the best./

I wasn’t looking, / But somehow you found me./ I tried to hide from your love life,/ But like heaven above me,/ You love me./ Was keeping all my secret saved till night/ And nobody does it better,/ Though sometimes I wish  Someone could./ Nobody does it quite the way you do./ Why do you have to be so good? /The way that you hold me,/ Whenever you hold me,

There’s some kind of magic inside you/ That keeps me from running,/ But just keep it coming./ How do you learn to do the things you do?/ And nobody does it better,/ Makes me feel sad for the rest ./ Nobody does it / Half as good as you./ Baby, baby, darling, you’re the best/ Baby you’re the best.

 

Ninguém faz isto melhor

 

Ninguém faz isto melhor,/(Isto) faz (com que) me sinta triste pelos outros./Ninguém chega aos seus pés,/Meu bem, você é o melhor./Eu não estava olhando,/Mas de algum modo você me encontrou./Eu tentei me esconder de sua vida amorosa/Mas como (se) o céu (estivesse) acima de mim,/Você me amou./(Eu) estava mantendo meu segredo a salvo até a noite/E ninguém faz isto melhor,/Apesar de algumas vezes eu querer/(Que) alguém pudesse (faze-lo)./Ninguém faz isto exatamente do modo que você o faz./Por que você tem de ser tão bom?/O modo como você me segura,/Sempre que você me segura,/Há algum tipo de magia dentro de você/Que me impede de correr,

Mas apenas deixe isto acontecer./Como aprende a fazer as coisas (que) você faz ?/E ninguém faz isto melhor,/(Isto) me faz sentir triste pelo resto./Ninguém chega a seus pés./Meu bem, meu bem, querido, você é o melhor./Meu bem, você é o melhor ... 



Escrito por Marcos Massolini às 23h49
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