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X (Continuação)
- Meu pai não era tão bacana assim. Eu amava ele, mas ele me tratava como um inútil e vivia me xingando. Eu também só o via aos domingos, mas mesmo assim, em casa, ele evitava o contato mais íntimo com a gente e se não estava mexendo nos seus papéis guardados, estava vidrado na TV vendo filme ou futebol. Ele vivia numa redoma intransponível – Abílio sacou que o menino não entendeu bem este desfecho, mas resolveu emendar:
- O meu velho morreu em 87, ao cair da escada do porão. Foi encontrado já sem vida entre a papelada e a poeira que tanto gostava.
- .....
- Guri, espere um pouco aí... não saia daí... continue comendo que eu não demoro.
Em dois minutos estava de volta com uma caixa na mão. O pequeno continuava ali, preso ao pedaço de torta.
- Este é um tabuleiro de ludo e pelas minhas contas, deve ter mais de quarenta anos. Eu nunca consegui jogá-lo, pois meu pai o guardava a sete chaves para que não se estragasse. Quando finalmente consegui reavê-lo, já estava saindo da adolescência; na época, não demonstrei o menor interesse e ele permaneceu guardado desde então. Acho que este momento não poderia ser mais propício para esta partidinha inédita. Você conhece este jogo?
- Não conheço não senhor.
- Bem, vou ensiná-lo a você. Está com pressa?
- Óia, eu tenho que voltar no fim do dia com algum trocado pra minha mãe podê comprar remédio pra voinha, mãe do meu pai, que mora com nóis, e leite pro meu irmãozinho que é nenê ainda.
- Quanto a isto não se preocupe. Você vende este drops vermelho aí na sua mão, né?
- Sim, mas já faz uns dia que num consigo acabá com eles e as veis tenho que apelá e pidí ajuda.
- Esquenta com isto não, que eu dou um jeito. Vamos ao jogo! Qual é o seu nome mesmo?
- Jairo.
Meu Deus, o mesmo nome do meu pai – pensou atônito Abílio, enquanto arrumava o tabuleiro na mesa.
Escrito por Marcos Massolini às 09h21
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