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XI (continuação)
Abílio se dirigiu à estante e ao achar papel e caneta, sentou-se à mesa e silenciosamente começou a rabiscar algumas linhas. Dobrou finalmente o papel e o colocou dentro de um envelope pardo. Repetiu a mesma operação e um novo envelope pardo recebeu outro papel misterioso. Entregou a Jairo um deles e apoiando a palma da mão no seu crânio, atentou:
- Olha, Jairo, nós nos conhecemos há pouco, mas parece que a amizade que se formou aqui é atemporal! Foi um grande barato! Espero que você tenha curtido este joguinho descontraído...
- Puxa, gostei muito mesmo, doutor... adorei jogar este jogo das antiga. E o nosso papo foi muito dez!
- Eu sabia que ia gostar. Mas por favor, pare de me chamar de doutor. Ouça...quero que me prometa uma coisa.
- Pois não dout...pois não seu Abílio.
- Bom, o “seu” eu acho que não vou conseguir tirar mesmo. Ouça bem: Quero que você me prometa; este envelope aqui... você só vai abri-lo quando não puder me encontrar mais, tá ouvindo? Só abra quando você perder totalmente o contato comigo. Promete?
- Si..sim senhor, pode deixar. Mas assim o senhor me deixa com medo. O senhor vai ter que sair daqui?
- Não, não fique assustado. Talvez eu tenha que partir pra muito longe; mas aconteça o que acontecer, saiba que você sempre será meu chapa, certo?
- Certo, seu Abílio! Prometo que vou guardar este envelope bem guardadinho. Não é mais dinheiro não, é?
- Fica frio. Você vai saber tudo no tempo certo. Agora trate de ir andando, moço, senão vai apanhar quando chegar em casa.
- Tô indo mesmo... tchau e brigado por tudo.
Abílio pensou em abraçá-lo, mas mesmo pressentindo ser uma despedida final , achou desnecessário externar este sentimento. Agora que conquistara totalmente a sua confiança, ele poderia questionar as atitudes deste coroa insano, que sem o conhecê–lo , tratou-o como um grande amigo, brincou como se fosse seu filho e ainda o presenteou com uma nota graúda. Louco ele sabia que estava mesmo: A cada hora que passava, mais e mais sua loucura aflorava. Mas também sentia que muito daquela revolta angustiante que sentia bem no meio do peito, parecia sumir conforme o aumento da excentricidade e do desapego. Apesar de estar no centro de uma casa totalmente revirada, recém assaltada, nunca se sentiu tão leve, tão desprendido.
Com esta sensação, saiu a pé daquela balbúrdia – parece que neste momento seu automóvel era uma motivação bem distante – e com o envelope idêntico ao outro na mão devidamente selado, rumou para a caixa de correio mais próxima. “Confiei naquele menino desde que bati o olho nele. O brilho nos seus olhos era o mesmo que eu ostentava com a sua idade. Ele certamente vai longe. Só espero que não vá tão perdidamente como eu fui” – refletiu Abílio, filosoficamente, no mesmo instante que desviava de um hidrante inativo.
Escrito por Marcos Massolini às 18h10
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