| |
Um dia me beijaram a boca e me tornei poeta
Mas tão acostumado com o adverso
Eu temo que um dia me machuque o verso
E o meu medo maior é o espelho se quebrar
( Espelho – João Nogueira/Paulo César Pinheiro 1974)
XII
Abílio flutuava em vapores densos pelo calçamento descontínuo. A euforia leve, fruto da sua metamorfose moral, se mesclava no íntimo com o pavor do desconhecido. De repente, seus pés se libertaram do seu comando cerebral e debicaram para a esquerda. Uma porta, estilo farwest, surgiu à frente, e seus descontrolados membros inferiores adentraram o recinto enfumaçado, só interrompendo as passadas largas quando toparam com o longo balcão de fórmica do bar americano. Abílio, até dando a entender que se acostumara com os lances alucinantes do dia , não se desesperou, e ao notar que retomou as rédeas de suas patas humanas, sentou na banqueta próxima, balançando a cabeça sem assombro, mas pasmo. O bar, com espelhos imensos e copos finos virados, era bonito e aconchegante. Estalou os dedos e logo um gordo com cara de açougueiro apareceu na sua frente. Pediu São Francisco com Undenberg. O obeso fez uma careta de buldog e sumiu de vista. A música ambiente estava bem baixa, mas Abílio logo notou a sinergia única de notas do piano mestre de Antonio Carlos Jobim. Fechou os olhos para curtir melhor aquele som primordial e quando abriu-os novamente levou um baita susto, pois um velho negro baixo de boné de lã estava ali parado, de repente, a poucos centímetros da sua perna, com a mão no bolso e uma enorme piteira na boca. Não aparentava menos de 70 anos e logo se apresentou, com a mão esticada para Abílio: - Salve, simpatia. Sou Pedro Aníbal Assumpção, a seu dispor. Mas pode me chamar de Pedro Milonga – sambista da Barra Funda, companheiro de roda de Geraldão Filme, Talismã, Toniquinho e Plínio Marcos.
- Prazer, seu Pedro Milonga, sou o Abílio, amigo da solidão.
- Ora seu, você tá na fossa, é?
- Fossa não, Seu Pedro Milonga. É medo puro. Hoje eu estou me libertando da escuridão e essa luz que eu estou começando a vislumbrar, apesar de me dar uma euforia juvenil, também me dá uma sensação de nudez diante de tanta força. Opa, seu Pedro, desculpa... estou divagando demais...
-É bom viajar um pouco meu filho. Como diz um samba de Paulinho da Viola: “Nele a semente de um novo amor nasceu – livre de todo rancor, em flor se abriu” . Não tenha medo não – em tempos de cólera e cegueira, ser chamado para se olhar no espelho e medir a própria luz, não é para qualquer um.
- Ô, Seu Pedro, agora é que eu estou pelando... o senhor fala como se me conhecesse... cruz credo!
- Calma, filho – é só a voz da experiência. Já se vão cinqüenta anos desde que eu pisei neste bar aqui. E quer saber? Neste tempo todo, esta espelunca nunca abrigou briga ou motivou droga. Este lugar tem aura! Todos que sentam aqui e pedem a sua biritinha, permanecem calmos, filosofam, renascem por cima deste balcão engordurado. E eu ... bem, eu estou sempre por aqui...
Abílio escutava o velho milongueiro enquanto media o timbre grave e o olhar maciço que o envolvia; os olhos grandes expressivos reportavam aos de Grande Otelo e a voz solene mas ao mesmo tempo confortante, lembrava muito a de Zé Kéti.
Abílio pediu licença ao mestre e foi aguar o vaso. Voltou rapidinho para o balcão mas o velho não estava lá. Perguntou pro barman sobre ele e a resposta congelou sua espinha:
- Pela descrição, você está falando daquele senhor ali do retrato na parede? O velho Milonga é patrimônio desse lugar! Morreu bem aí onde você está, há uns dois anos atrás, com a cara na caneca de chopp. Tinha 85 anos... 80 de samba, 75 de cachaça.
-Mas, ele....
Antes de completar a frase, Abílio achou por bem pagar a conta e sumir dali. Ao deixar o muquifo, ainda pode ouvir um trecho do samba de Elton Medeiros que saía de um auto-falante roufenho próximo a saída:
“Uns com tanto, outros tantos com algum, mas a maioria sem nenhum”
Escrito por Marcos Massolini às 23h28
[]
[envie esta mensagem]
|
|