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“Aquela estrela é dela,
Vida, vento, vela, leva-me daqui ”
(As Velas do Mucuripe -Fagner-Belchior – 1971)
XIII
No caminho de volta para casa, com o céu já escurecendo, Abílio notou uma pequena estrela vermelha que parecia acompanhar seu trajeto. Admirou a luz que logo sumiu por entre a poluição e a nebulosidade, enquanto mais uma vez, repassava os inacreditáveis momentos deste intrigante dia e tentava colocar alguma resposta plausível neste emaranhado de fatos, tanto os fátuos como os efusivos. Alguma ligação aquilo tudo devia ter, para acontecer assim de turbilhão num único dia: O espelho, a visão do chefe, o vazio na repartição, o tiro, o encontro com o idoso e o seu estranho relato sobre Dhevas, a invasão da sua casa, o encontro com aquele menino de aura clara que o cativou de imediato; estes fatos assim enumerados pareciam peças soltas de um grande quebra-cabeça, mas se não havia uma explicação viável para esta sucessão citada, algo estava bem nítido: o desencadeamento proposital ou não destes acontecimentos gerou sentimentos inéditos para Abílio, que o fizeram pela primeira vez enxergar a si mesmo e a sua vida. Todos os valores que preservara até então se tornaram supérfluos e insípidos.
A ebulição de pensamentos surgiu tão intensa que a rápida aparição do objeto vermelho luminoso há pouco não o impressionara tanto, como seria natural. Mas ao adentrar seu desfalcado lar mais uma vez, Abílio não notou que atrás de sua cabeça, próximo à nuca, um brilho fraco mas constante, de leve toque avermelhado, se alojara por baixo de sua gola como uma pequena lanterninha japonesa. Alheio a este detalhe, abriu outra lata de cerveja e novamente escolheu um LP empoeirado da pilha que se amontoava. Desta vez o som era mais denso e menos romântico, com pitadas percussivas pontuando a flauta e a viola. Esta música cheia de nuances veio dos sulcos do primeiro disco da discografia do Som Imaginário, grupo mineiro/carioca que acompanhou Milton Nascimento no início dos anos 70 e que teve em sua formação, sempre centrada em Wagner Tiso, feras como Zé Rodrix, Tavito, Fredera, Luis Alves, Robertinho Silva, Naná Vasconcelos (em aparições esporádicas) e prosseguiu com seu progressivo brasileiríssimo (mesmo que impregnado de Beatles) pela primeira metade da década. Um dos grandes feitos deste “discão” foi apresentar ao público, juntamente com o contemporâneo “Milton” de Milton Nascimento (LP que também contava com a cozinha do Som Imaginário) a música de dois moleques mineiros, Lô Borges e Beto Guedes, que debutaram aqui com “Feira Moderna”, composição inspirada com letra metafórica de Fernando Brant. Embora a Emi-Odeon tenha lançado recentemente o CD, em edição limitada, poucos, mas poucos mortais têm este LP de capa vermelha e preta em sua discoteca. Abílio, um deles, agora relembrava alguma rua distante de sua infância, uma Abbey Road perdida atrás de uma igreja humilde de um rincão brasileiro qualquer.
Escrito por Marcos Massolini às 21h03
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