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XIV - PARTE II
- Olha, espelho...posso te chamar de espelho? Não conseguiria te chamar por outro nome.
- Prossiga e fique a vontade, Abílio. Só não use por favor, o antiquado “Espelho, espelho meu”, ok?
- Olha, espelho, em pouco mais de doze horas, presenciei coisas que apesar de não serem esclarecidas e não trazerem sentido aparente, vieram por um motivo muito forte, como uma conspiração do destino; nunca me senti tão bem na minha vida e só me arrependo de ter deixado o tempo passar sem ter reagido contra este cotidiano estúpido a que me submeti. Mas por que eu? Por que esta ruptura? Você tem respostas para os acontecimentos de hoje?
- Infelizmente não posso explicar com detalhes o que aconteceu. O que posso adiantar é que tudo aconteceu na mais perfeita ordem, de acordo com a regência suprema.
- Mas como assim? O meu dia foi bem desordenado... não achei nada normal!
- Tudo depende do ponto de vista, do ângulo que as coisas são observadas e do estado de espírito no momento das experiências. Eu falei em perfeita ordem e não em normalidade. O que foge das normas nem sempre está desordenado. Por exemplo: Você não entrou em parafuso ao avistar seu saudoso chefe?
- Ei, você andou me seguindo?
- Pois bem... na verdade quem você viu ali na garagem foi o Dr. Lauro, irmão do seu chefe. Muito parecido com Leo Vasquez, ele estava naquele momento vistoriando o prédio, que aliás é de sua propriedade, pois uma dedetização estava prestes a acontecer. Se você tivesse um bom relacionamento com seus colegas, saberia desde o meio da semana que haveria este serviço nas dependências do edifício, mas quando o aviso geral foi dado, você estava na banheiro e ninguém comentou com você depois. Hoje, enquanto você, estupefato, saía correndo para o elevador e alcançava a rua, Lauro lentamente chegava no último degrau da escada e foi por pouco que não cruzou com a sua figura em pânico. Você só acertou na mosca em um detalhe: o terno era realmente do seu chefe - o irmão, famoso por sua avareza, se apoderou dele logo depois de sua morte.
- Rapaz!
- É isto. O que foge das normas nem sempre está desordenado.
- Certo, foi um belo exemplo! Mas totalmente isolado do encontro surreal um pouco antes com o espelho.
- Concordo...
- Concorda, mas este “feitiço” você não esmiuça, né? Gostaria muito de saber onde tudo isto vai descambar, mas sei que não é você (eu?) que vai me dar a resposta. Me sinto sereno mas ao mesmo tempo alerta, pois uma sensação de partida me atordoa. Vou continuar com este frio na barriga, como alguém prestes a desabar do topo de uma montanha-russa.
- Oh, céus, oh dia, oh azar! Ora, ora, caro Abílio! Não seja tão dramático. O que eu posso confirmar é que amanhã é um novo dia e você será uma nova pessoa.
- Como assim? Como...
Mas um clarão vermelho surgiu à sua frente e a conversa foi bruscamente interrompida.
- Espelho, espelho, espere...
Silêncio.Abílio olhou para o seu velho e comportado reflexo. “Bom, este aqui também não tem todas as respostas, mas pelo menos é muito mais comportado que aquele outro que nem se despediu... ô figurinha difícil! E engraçadinho, ainda por cima...
Escrito por Marcos Massolini às 18h36
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