Instante Poesia e Cultura
  

                                                     XVI - PARTE II

A sua mãe, que lera para ele em voz alta, começou a chorar convulsivamente, emocionada com a situação, mesmo não entendendo bem o porque de tudo aquilo. Jairo correu para a laje e agradeceu aos céus por ter conhecido tão bondosa pessoa. A outra carta postada por Abílio foi destinada à Geraldo Banas, um antigo colega de infância que apesar de não ter preservado uma amizade sólida, manteve contatos cordiais que incluíam e-mails com piadas velhas e cartões de fim de ano, além dos serviços corriqueiros como gerente da sua conta bancária; Abílio sempre confiou na sua pessoa, uma das mais íntegras e honestas que pôde botar os olhos em  vida. Na verdade, Geraldo tinha uma grande dívida com ele, pois Abílio salvara sua vida em um passeio na juventude, quando o barco em que pescavam virou e graças ao heroísmo do parceiro, foi tirado das águas desacordado. Na carta, Abílio reitera a decisão de deixar a movimentação de sua conta aberta para o menino Jairo e pede para ele conduzir as ações; entende que este pedido inesperado é bem esquisito, ainda  mais sendo ele um cliente que só deposita nesta conta o seu décimo terceiro e mantém uma monótona rotina financeira. Diz também que não entende bem este ímpeto entusiasta, pois nunca soube dividir nada – e o nobre colega Geraldo sabe disto - só sabe que está seguindo a voz do seu coração e que sente uma mudança drástica se avizinhando. Conclui que ele deve seguir suas recomendações como profissional mas sobretudo como velho chapa e deve também confiar na sua vontade, por mais anormal que possa parecer. Abaixo da sua assinatura, Abílio ainda fez questão de escrever uma frase dita na ocasião do salvamento e só do conhecimento dos dois: “Nada, nada... pode ser tudo! ”

Geraldo, mesmo achando a situação esdrúxula, sabia que Abílio não dava ponto sem nó, ainda mais em se tratando de dinheiro, e tocou o barco conforme as instruções. A primeira providência que tomou, logo que o menino ligou em sua residência, foi dar-lhe três dicas básicas: levar sempre a mãe ou o pai para que a sua precocidade não levante suspeitas da vigilância bancária; sacar o dinheiro em doses homeopáticas para que não haja desconfiança sobre a retirada vultosa de dinheiro; e por último, não andar com soma exorbitante por aí, sacando só quando houver necessidade.E assim se fez. Sem alarde, o dinheiro foi sendo escoado para as mãos calejadas de Jairo; A compra da casa própria veio logo: O pai vestiu roupa de missa e pagou à vista, calando com o vil metal qualquer estranhamento ou incompatibilidade de origens. À margem dos procedimentos legais que os outros bens de Abílio estavam relegados, a existência desta conta-corrente passou despercebida e quando finalmente se descobriu a sua documentação de  abertura, havia muito pouco a resgatar. Uma das últimas  recomendações via fone de Geraldo à Jairo foi que se deixasse uma quantia, mesmo que ínfima, depositada, e que o cartão fosse  definitivamente destruído. Durante o processo todo, Geraldo manteve a situação sob controle, embora sentisse a honestidade chamuscada pela sua inédita vista grossa. Quando a tortura terminou, ele se desligou do banco e sumiu da cidade. Dizem que virou salva-vidas numa praia do Sergipe. Nada, nada.... é tudo! Jairo também se mudou para outro bairro e livre do fantasma do aluguel, voltou a estudar e montou com seu pai um carrinho de hot-dog, estrategicamente estacionado em frente a um novo e grande colégio de classe média, o que colaborou para seu sucesso. O seu interesse pela administração ficou latente a partir daí e seria peça primordial para a sua arrancada profissional.A  liderança social nata, outra característica marcante de sua personalidade e que até então ficara encoberta no embate penoso dos excluídos nas ruas, aflorou com paixão e a comunidade carente do seu  bairro de origem logo pôde ser acalentada por projetos culturais e solidários criados pelo seu empreendedorismo precoce.

Jairo, que chegou a passar fome e catar restos de comida em depósito de lixo, sentia que o amanhã lhe sorria, e nada, mas nada no presente estragaria este presente futuro.

 



Escrito por Marcos Massolini às 23h48
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“Sei que nada será como está/Amanhã ou depois de amanhã/resistindo na boca da noite um gosto de sol”

(Nada será como antes – Milton Nascimento/Ronaldo Bastos

LP Clube da Esquina – 1972)

 

XVI- PARTE 1

 

 

Desde o início do século XX, desaparecimentos de indivíduos pacatos ou solitários, sem vida social ativa e um círculo irrisório de amizades, se tornaram cada vez mais constantes. Destes casos,  70% foram arquivados pela polícia investigativa por falta de conclusão. De uma hora pra outra, esses indivíduos evaporaram no ar, sem deixar vestígios ou provas criminais. Nenhum bilhete, nenhuma gota de sangue, nenhum roubo ou digitais alheias. Só um detalhe chama a atenção: em cerca de 5% destes casos, testemunhas oculares presenciaram um clarão e em 20% do testemunho de vizinhos próximos, a constatação de um estrondo seco e curto, como uma bomba caseira em um buraco fundo. Nestas ocorrências, a polícia nunca identificou resquícios de explosivos ou a presença de artefatos químicos. Algumas paredes chamuscadas, espelhos trincados, telhas e forros cortados, indícios fortes, mas sem impulso para a solução dos casos.

  

***

 A única testemunha ocular contou depois à polícia que um grande clarão vermelho surgiu bem em cima do telhado no momento em que ela passava do outro lado da rua, e que segundos depois a casa já estava daquele jeito. Bem, a posteriori este testemunho foi inteiramente descartado no inquérito público do caso, por esta pessoa ter um passado de internação em um hospital psiquiátrico. O fato é que aquela casa, na Rua Haroldo de Campos, 1956, Vila Concreta, São Paulo, estava impecável por fora, mas por dentro é como se uma pequena explosão tivesse estragado boa parte da parede e dos móveis. Os vizinhos não ouviram nada, nenhum barulho suspeito, nem tampouco souberam informar o paradeiro de Abílio.

Durante as semanas seguintes, a polícia rastreou tudo sem obter resultados concretos e declarou Abílio desaparecido. Nem sua mãe, nem os colegas de trabalho sabiam do seu destino. Os homens da lei procuraram pessoas óbvias dentro do seu pequeno universo íntimo, e descobriram que Abílio não vinha se relacionando com nenhuma delas. Com a mãe, esparsos telefonemas e com seu único filho, nenhum contato desde a debandada da ex-mulher para nova vida em local ignorado.

Jairinho voltou para reencontrar aquele "tio bacana" do outro dia mas diante da movimentação policial em torno da casa resolveu esperar a poeira baixar. Mas as semanas foram passando e ele sentiu que Abilio não voltaria mais. Depois de um mês exato resolveu abrir aquele misterioso envelope e qual não foi a sua surpresa. Abílio lhe deixara uma carta com cara de testamento, nada formal, mas definitiva:

“Meu amigo Jairo. A nossa amizade é para sempre. Estou lhe deixando juntamente com esta carta, um cartão bancário e uma senha que você deve guardar na cabeça e jogar fora; O cartão é da minha conta corrente especial do Banco Clássico de Crédito com aproximadamente cem mil reais e que vem sendo mantida há quinze anos como uma conta  reserva, paralela à minha conta-salário. Ela é uma conta discreta num banco discreto e é fruto da minha fase como especulador na Bolsa de Valores.

Mas chega de explicações inúteis e vamos ao que interessa: Este dinheiro é todo seu e de seus pais. Um senhor de nome Geraldo, meu amigo pessoal e gerente desta conta, está a par de tudo e te ajudará na movimentação. Ligue para 3212 152, pois ele te aguarda; Peço desculpas por tudo ter sido tão rápido e por ter deixado tantas dúvidas. Espero de coração que este presente que te deixo seja o símbolo de uma jornada de muito trabalho e glória. Estarei bem. Que Deus te abençoe."

Abílio Cruz Pajera – 13/06/2003

 



Escrito por Marcos Massolini às 23h44
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“Este papo já tá qualquer coisa

Você já tá pra lá de Marrakesh

Mexe

Qualquer coisa dentro, doida

Já qualquer coisa doida

Dentro mexe

Não se avexe não.....”

 

(Qualquer Coisa – Caetano Veloso

LP Qualquer Coisa – 1975)

 

                                       XV

 

A noite se tornou fria e eis que nos deparamos com o primeiro capítulo novamente. Lá, vimos o nosso exímio Abílio sofrendo para dormir, se mexendo sem parar no seu sofá-cama. Aquele desconforto veio logo após a conversa com seu reflexo animado (e desanimador?) no espelho que mais uma vez se mostrou com poderes. Apesar de extenuado pelas batalhas físicas e mentais enfrentadas no decorrer do dia, ele não conseguia dormir por causa da confusão danada em sua cabeça. Se o espírito, a alma, se encontrava na mais perfeita comunhão com a paz e a tranqüilidade, o  psicológico entrara em parafuso, numa profusão de dúvidas e respostas herméticas atiradas ao limbo. Na verdade, a serenidade interior caminhava junto com um sentimento antagônico, um frio na espinha que parecia prenunciar uma grande metamorfose. Não vislumbrava a morte, mas se sentia às vésperas de uma grande viagem sem volta.

     Até que depois de horas se degladiando com  as idéias cada vez mais desencontradas, subitamente se aquietou. Ao fechar os olhos, sentiu uma cortina vermelha encobrir tudo. Percebeu então que as respostas não seriam dadas naquele momento, preenchido de silêncio. Uma paz profunda e aconchegante absorveu os sentidos, paralelamente à ruptura iminente. Suas últimas imagens nítidas foram a visão do campo de Dhevas coberto de flores e tanto seu filho, Marquinhos, como Jairo, lhe dando as mãos, ambos com um sorriso miraculoso. A vermelhidão ia tingindo os espaços. O zumbido incessante que surgiu no raiar do dia, finalmente implodiu. Abílio sorriu também um largo sorriso enquanto mantinha no ouvido esquerdo uma bela melodia que parecia inventada especialmente para aquele momento escarlate.

 



Escrito por Marcos Massolini às 21h10
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Depois de longo periodo de recesso, este blog orgulhosamente fecha a saga de Abilio e seu Espelho. Não percam os ultimos capitulos a partir de agora!

 



Escrito por Marcos Massolini às 20h58
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